Quanto encanto num pequeno canto

Joaquim Martins e Ana Martins tinham respectivamente 75 e 76 anos e viviam na aldeia de Drave, “uma aldeia tradicional”, quando em 1993, há precisamente 30 anos, foram entrevistados, por uma estudante universitária (que agora é a professora de Geografia A desta turma), no âmbito da realização de um trabalho que tinha como objetivo narrar a sua história de vida.

Viviam sozinhos naquela aldeia porque os filhos “queriam ir e foram, mas o casal progenitor ficou (...)”. Joaquim “não foi à escola” e agora as suas fontes de rendimentos são as reformas, como refere Joaquim “temos as reformas da agricultura (...)”.

Com base na história de vida dos últimos habitantes da aldeia de Drave, pretendemos caracterizar a desertificação das aldeias no concelho de Arouca. Para isso far-se-á uma análise de conteúdo ao texto original que envolve duas categorias: a Caracterização das aldeias tradicionais serranas e suas gentes (1) e os Fatores de desertificação das aldeias (2). As subcategorias utilizadas para o domínio 1 são: a paisagem/condições naturais (A); as gentes (B); tradição e cultura (C); atividades económicas (D). No domínio 2 as subcategorias são: distância e acessibilidades (A); envelhecimento da população (B); abandono rural e litoralização da economia (C) e estatuto social (D).

Através dos relatos do Sr. Joaquim e da D. Ana percebemos que a aldeia de Drave é “(...) um lugar esplêndido (...)”; “(...) um lugar deserto, pontilhado de construções de pedras sobrepostas, cobertas por placas de lousas (…)”; “(…) é serra e apenas serra(…)”. A caracterização da paisagem e das condições naturais ajudam a idealizar uma imagem de Drave no nosso pensamento, uma beleza natural com “(...)um céu muito azul e a brisa traz-nos o aroma das plantas, das árvores, o cheiro característico, inconfundível da serra.”

Sobre as gentes não há muito a registar, visto que, à data desta entrevista, o casal Martins eram os únicos habitantes da aldeia. Eram duas pessoas humildes “D. Ana recebeu-nos amistosamente, tal como o marido"; “conversar com o Sr. Martins não é difícil porque é afável e recetivo”. Todos os familiares (tios, irmãos, filhos…) partiram, exceto eles, que se mantiveram fiéis àquela aldeia isolada “Eles ficaram, porque a sua condição humilde revela-se ali na partilha diária”. Nasceram em Drave e vão morrer em Drave, “a barba crescida é, tal como os cabelos, grisalha“. A idade já não acompanhava as necessidades do Sr. Martins, “tem artrose e dificuldades em caminhar” e “está velho”; permanecer na aldeia pouco o favorecia, mas, mesmo assim, a sua teimosia fez com que ele e a esposa ficassem.

Revelaram-se ao longo da entrevista “(...)Fiéis às tradições de séculos”. Vindimavam e divertiam-se nos bailes, quando a sua condição ainda lhes permitia tal “(...) nós apanhávamos as uvas e esmagámo-as, para no dia seguinte beber o vinho (...)”; “(...) bailes que usualmente serviam para divertimento dos mais jovens (...)”. Quando a idade se tornou notória, ficaram por perto de casa, a viver do que a agricultura sempre lhes dera “(...) cereais, a batata, vinho…” , “(...) quantidade de milho que produziam (...)”.

Quando surgia uma oportunidade, juntavam-se à família dos Martins de Drave, e uma vez até houve uma missa. "Seiscentos parentes reunidos, numa capela para celebrar a família.”

Relativamente às atividades económicas, “Ana trabalhou na extração do minério, nomeadamente do estanho”, durante a época da revolução e “(...) ganhava 25$00 o dia”, para além da agricultura, era o maior sustento do casal, “(...) cultivam agora, os cereais, a batata, vinho (...)”. No entanto, a pecuária começou a escassear “Já não tem gado caprino, restam-lhe quatro vacas, duas delas com crias, galinhas…” O Sr. Joaquim afirma ter saído de Drave, apenas para ir para a tropa: “Andei três meses em Braga e sete ou oito meses em Chaves, Trás dos Montes. Ainda estive no Porto e em Espinho, onde revela ter sido cavalariço. “Tomava conta dos cavalos, montava-os e preparava-os”.

“Drave é uma aldeia tradicional, encaixada na serra do maciço da Gralheira, a mais de 40 km da vila de Arouca, sede do concelho a que pertence. Para chegarmos ao lugar tivemos de concluir o percurso a pé, atravessando uma ponte sobre o rio cristalino (...)”. “ Os filhos querem tirá-los daquele isolamento (...)”, pois “ Os acessos são difíceis, não há estrada asfaltada, e mesmo a de terra batida não vai até ao lugar, (...) “. Por exemplo, “ D. Ana tem que tomar remédios diariamente (...) “ e num há correio p’ros trazer”. Assim, ela tem que esperar que alguém vá a Arouca e lhos traga. É uma vida afastada da população, das atividades económicas e dos serviços e o casal está sozinho no meio da imensa natureza. No entanto, “ (...) viver isolados não é sinónimo de solidão (...) “, a D. Ana e o Sr. Martins nunca se sentiram abandonados e sós.

É notório o gradual envelhecimento destes dois últimos habitantes de Drave. O Sr. Martins refere que “No meu tempo num havia bailes. Depois disto já houvero aqui bailes.”, manifestando que na sua juventude, quando gostaria de ter ido a bailes, estes não existiam. O sentimento saudoso que este casal revela pelos tempos antigos enche os seus corações.

Pouco a pouco, os habitantes de Drave começaram a abandonar a aldeia. Os seus filhos formaram as suas famílias em lugares mais urbanizados: “Os filhos cresceram e um a um foram abandonando o lar paterno(...)” e “As filhas deixaram o lar, para irem viver para o lugar onde residiam os maridos.” Todos fugiram para o litoral, em busca de novas oportunidades de trabalho e de melhores fontes de rendimento. Mas para o casal “Abandonar aquele lugar era desenraizar-se(...)”. Também Drave sofreu, como muitas outras aldeias, o efeito do despovoamento associado, na maioria dos casos, à litoralização demográfica e das atividades económicas.

Relativamente ao estatuto social, pode dizer-se que este casal vive do que produz, não tendo muitas condições monetárias e vivendo da reforma da agricultura. No entanto, em tempos, o Sr. Martins havia ido para a tropa e a D. Ana trabalhado na indústria mineira.

Em suma, Drave é/foi uma aldeia magnífica, cheia de vida e de cor, repleta das mais bonitas paisagens e das mais humildes pessoas. Hoje, deixada ao relento, sem ninguém que a habite, é objeto de frequentes visitas turísticas, contribuindo para a visibilidade de Arouca e enchendo o coração de todos os arouquenses.

Quantas outras aldeias existem em Arouca a sofrer este processo?

Texto elaborado por:

Cátia Pinho (10ºE)
Maria Pinho (10ºE)

Análise de conteúdo elaborada por:

Todos os alunos do 10ºE

Escola Secundária de Arouca
Projeto DAC - Turma 10ºE - 2022 /2023