Encontro com Sophia de Mello Breyner Andresen

A convite do Círculo Cultura e Democracia, três alunas da ESA, Ana Margarida Sousa Barbosa, Ana Miguel de Sousa Carvalho e Mariana Teixeira Duarte, selecionaram e leram poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen, num Encontro com Maria Andresen de Sousa Tavares, sua filha, poeta, professora de literatura e responsável pela herança literária da mãe.

Maria Andresen falou dos espaços e dos lugares que atravessam a poesia da mãe e que, naturalmente, terão partilhado e experienciado juntas. Na mesma sessão, Diogo Dória, ator e encenador português, leu um número apreciável de poemas da autora, oferecendo aos presentes uma viagem pela sua poesia. 

Esta iniciativa teve lugar no passado dia 28 de outubro, na Biblioteca D. Domingos de Pinho Brandão, e atraiu um público diversificado, apreciador da poesia de Sophia. Foi, sem dúvida, um privilégio esta aproximação à obra da autora, através das palavras e do testemunho de sua filha.

Sophia, a primeira mulher portuguesa a receber, em 1999, o mais importante galardão literário da língua portuguesa, o Prémio Camões, repousa, desde 2014, no Panteão Nacional.   

Aqui ficam os poemas escolhidos pelas nossas alunas:

Hora

Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta – por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.

Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.

E dormem mil gestos nos meus dedos.

Desligados dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.

Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.

E de novo caminho para o mar.

O Poema

O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo.

As pessoas sensíveis

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

“Ganharás o pão com o suor do teu rosto”

Assim nos foi imposto
E não:
“Com o suor dos outros ganharás o pão”

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoais–lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.

Fotos